Não, você não sabe. E eu provo por quê. Ganhar uma medalha de ouro poderia ser tocar na frente, bater o recorde, subir ao lugar mais alto do pódio com os companheiros de revezamento... Ah mas tem o invejoso que foi no mercado clandestino e comprou aquela réplica de sua medalha, para dizer que tem uma no quadro em casa. É, mas com certeza, você não sabe o que é ganhar uma medalha de ouro.
Por onde você quer que eu comece? Aristóteles ou Jesus? O que se segue envolve algo que se você tiver o mínimo de conhecimento, vai conseguir identificar ao que me refiro. Não há pretensão alguma em revolucionar sua visão consumista americanizada sobre ganhar medalha. Falar de materialismo prático de Karl Marx em relação à quantidade de medalhas que a federação distribuiu também deixaria você perdido nos argumentos. Pior ainda, um dos meus favoritos, o protestante e alemão Immanuel Kant colocar suas ideias sobre aquele metal da tabela periódica ao fio da relatividade de Albert Einstein. Daria um livro.
Outro dia, cerca de 30 anos depois que consegui minha primeira medalha "de ouro", eu havia me deparado com um garoto de 12 anos que exibia orgulhoso, sua medalha de primeiro lugar num campeonato. Mas aquilo me remeteu de tal forma ao passado, como se eu me visse no lugar daquele garoto. A época é bem diferente e diferentes são os ambientes, os contextos e até a forma como a medalha foi conquistada. Ver aquele garoto sorrindo pra foto me fez pensar, também, em seus pais e como tudo aquilo poderia fazer parte de um processo educacional.
Pelo menos, até que você seja capaz de mergulhar fundo no que vou dizer, para saber como ganhar uma medalha de ouro, é preciso uma coisa que a gente esquece de deixar lá atrás, na infância, quando master. Desvincular-se. Em que sentido? No sentido exato do desapego.
Os anos passam e as experiências de competição amadurecem cada vez mais, conferindo sentidos outros para cada conquista. Ainda que em períodos longos fora de competições, aquela nostalgia se renova cada vez que for preciso colocar de novo a touca e os óculos e escutar o árbitro anunciar "às suas marcas". No entanto, a tal da "mesmice" acontece mesmo como tendência e o mal costume de subir ao pódio se torna repetitivo e sem graça à busca de um recorde, se o desapego de fato não for vivido.
Seria pela beleza do formato da medalha? Seria seu brilho atraente? Ou pela importância da entidade? Nadadores masters costumam carregar preconceitos em torno de medalhas, na exata proporção descrita por Immanuel Kant. Alguns fazem tanta questão que não só brigam na água, como antes mesmo alfinetam as entidades sobre a "qualidade" da medalha. Mergulhados em seu consumismo materialista, suas relações pessoais com os demais nadadores se tornam tão obsoletas que a fidelidade ao número de medalhas que acumulam no baú em casa parece ser mais importante do que reaver amigos.
Tudo isso desemboca numa intransigência ética tão estúpida que seu conflito maior vai se espelhar na política, disfarçando sua incompletude consigo mesmo, à busca de uma vítima de expiação, como foi com Jesus. Esqueceram o que Aristóteles apontou como felicidade em estar no caminho, não na medalha, e que nadar sem o toque final é bem mais pleno e gozozo do que aquele momento do recorde que já passou e se esvaiu.
Aquela criança segurando a medalha, orgulhosa da conquista, trazia no olhar algo que raramente se encontraria num nadador master. Ainda que sendo suas primeiras experiências de competição, o que diferencia, o que se tornar marcante é que uma criança quando compete, se lança totalmente num desapego material, diante de tanta coisa que representa aquele momento. Sua relativa vantagem física, observada pelos adultos, não consegue esconder o brilho em seus olhos como resultado de algo que não existia antes e passou a se concretizar após aquele momento.
E então, você sabe como ganhar uma medalha de ouro? Como dizia o rei Salomão: "Vaidade das vaidades, tudo é vaidade e correr atrás do vento" – Livro do Eclesiastes, capítulo 1.


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