Até bem pouco tempo, as disputas nas eleições do Brasil beiravam o que achávamos parecer com "democracia civilizada". Quem votava na esquerda não precisava se sentir culpado, tampouco quem apoiasse a direita. Havia um clima de relativa comodidade, quando não se conhecia nem o poder do voto nem as consequências dele.
Nos anos 2003, conheci uma senhora no alto de seus 89 anos que estava fazendo um curso universitário, e não consigo me esquecer daquele início quando o professor fazia uma roda de conversa e cada um expunha seus motivos pra estar naquele curso. E ela sorriu dizendo que não aguentava ficar em casa acomodada, sentia que precisava fazer algo e que por anos, guardou profunda admiração sem ter tido aquela oportunidade, quase chegando aos 90.
Eu sei que é difícil hoje, instigar toda uma geração a mastigar informações por completo. Eles preferem os blocos pré-fabricados, as fórmulas prontas, quando noutra época o professor mandava construir a própria fórmula. O que dóe são essas desculpas esfarrapadas em quem votar na direita ou na esquerda. São uma tentativa de argumento sem qualquer fundamento, quando se poderia resumir a "eu voto em fulano e pronto" ou "lá na urna ninguém precisa saber de meu voto".
Construir uma consciência coletiva a partir das várias feridas na história do Brasil tem sido um dos maiores desafios contra os que acreditam fielmente em alienígenas. Ganhar dinheiro alimentando essas fantasias passou a ser profissão ambulante, sem pagar ISS, com a desculpa de que o dízimo é "sagrado". Eles estudaram Kant, Sócrates e Nietzsche: entrou num ouvido e saiu no outro. A figura de um Jesus arrogante e prepotente mantém o imaginário coletivo produzindo sombras de alienígenas vestidos de azul e vermelho com estrelas esbranquiçadas.
Esse tipo de delírio social foi previsto por Marx há quase 200 anos, mas num contexto totalmente diferente diante de pessoas extremamente pobres economicamente. Platão e até o Rei Davi viveram algo na mesma perspectiva. Mas o brasileiro foi lá e inovou mesmo, fez da pobreza de inteligência seu espetáculo maior, ao cuspir direto na bandeira, pedindo para que os alienígenas o salvassem do "comunismo". A noção de justiça social ou de "reino de Deus" foi colocada num liquidificador com ácidos, bases, nitratos, extratos de ervas amargas, ódios e achismos: todo mundo agora podia produzir sua própria ciência. O "arquiteto" lá da Matrix, o dono do Facebook e do Instagram, já está na nona versão de Smith, e ninguém se dá conta disso.
Enquanto isso, Guerra de Canudos, Alto da Compadecida e Tropa de Elite ainda não conseguiram mudar o voto do imbecil que faltou à prova de História e pode ser reprovado de novo. Tenhamos misercórdia do coitado, os gritos da mãe na infância o fizeram ficar atordoado pro resto da vida, com falso atestado de TDAH, sem conseguir calcular o cosseno de quando seu veículo faz uma curva à esquerda ou à direita numa rotatória.
Paz e amor, Brasil.


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